artigo publicado na Folha de São Paulo em 14/03/2009 por Clóvis Rossi
Teste para o leitor: se você ler que um importante líder político está dizendo que um determinado país deve "manter sua credibilidade, honrar seus compromissos e garantir os ativos de nosso país", vai imediatamente pensar que alguém está falando em risco de calote no Brasil, na Argentina, na Venezuela ou em algum outro exótico país tropical, certo? Era certo até uns anos atrás. Agora, a frase, literalmente reproduzida, é do primeiro-ministro chinês Wen Jiabao, e o alvo são, sim, os Estados Unidos da América. "Nós emprestamos uma enorme quantia de dinheiro aos Estados Unidos e, naturalmente, estamos preocupados com a segurança de nossos ativos", disse Wen. Calcula-se que dois terços dos praticamente US$ 2 trilhões de reservas da China estão em ativos norte-americanos, especialmente títulos do Tesouro. É natural, portanto, que estejam preocupados. Mas não pense que é apenas aquela velha história de que quem não dorme à noite é o credor, nunca o devedor. Desde que a crise global se agravou, a partir do último trimestre do ano passado, a palavra calote, associada a Estados Unidos, começou a aparecer aqui e ali, a princípio timidamente. Quando a possibilidade de um calote foi mencionada no endereço do Council on Foreign Relations, talvez o principal centro de pesquisas de política internacional do planeta, aí a coisa ficou realmente assustadora. Não sei se alguém já parou para estudar as consequências desse cenário de pesadelo. O fato é que Wen Jiabao acrescentou que a primeira prioridade da China é defender os seus próprios interesses, ainda que com o outro olho na estabilidade financeira internacional, coisas que são "interrelacionadas". É um aceno no sentido de que a China pode parar de financiar os EUA? Se for, quem vai perder o sono somos todos.
domingo, 15 de março de 2009
domingo, 1 de março de 2009
Semana da Mulher
A trajetória específica da mulher desde o surgimento do homo sapiens é tão conturbada e controversa quanto a trajetória da humanidade como um todo e de suas partes em si, mas apresenta algumas peculiaridades que devem ser levadas em conta.
Foi na Revolução Agrícola, na transição do paleolítico para o neolítico, que o papel da mulher ganhou as configurações que, até bem pouco tempo atrás, se impunham de maneira indiscutível na organização da maioria das sociedades, da Groenlândia ao Ártico, tanto à leste quanto à oeste de Greenwich. Afinal, conservadores até a medula, os machos se mantiveram caçando, pescando e coletando, enquanto as mulheres, além de se dedicarem à manutenção da caverna (e, a partir da citada transição, da palafita) e à proteção dos filhotes, agora também plantavam, colhiam, pastoreavam e, nas horas vagas, de ócio criativo, desenvolveram a cerâmica, a religião e, segundo algumas fontes, principalmente baseadas no crescente fértil e nos árias, até o calendário. A relação entre o neolítico e as mulheres é óbvia. Uma das fases mais criativas da humanidade, a importância dos rios e da fertilidade do solo para essa etapa e para o consequente surgimento da civilização colocavam o mito da "deusa mãe" no centro da cultura, entre 20.000 a.C. e o século V d.C. (entre o neolítico e a queda da antiguidade).
Na medida em que a civilização surgiu, e o poder político se estruturou, a função da mulher foi se restringindo ao lar, principalmente entre os povos mais belicistas mas, ainda assim, a necessidade de filhotes saudáveis em sociedades como a espartana e a romana conferiam um certo "status" à mulher.
No início da Idade Média, com a ascensão do monoteísmo - cristão no ocidente e, no oriente, islâmico - ambos escorados na visão hebraica, ganha importância a compreensão da mulher como "influência pejorativa" ou "instrumento da tentação", nas palavras de importantes teólogos da época, como Santo Agostinho, em suas "Confissões", ou no próprio Alcorão maometano (vide o mito de Eva, a história de Dalila ou a interpretação da vida de mulheres históricas como Maria Madalena ou Cleópatra).
A partir de então, fogueiras, burcas, cintos de castidade e outros instrumentos de repressão se tornaram presentes no cotidiano de mulheres pelo mundo inteiro.
Já na Idade Moderna, a partir da ascensão dos valores burgueses, entre eles o individualismo e o materialismo, as mulheres foram se tornando mão-de-obra e, posteriormente, mercado consumidor cada vez mais útil.
Na colonização da América, mulheres brancas eram raras e, nesse "viés", também valorizadas, ainda que submetidas à um dos piores tipos de patriarcalismo de todos os tempos - o patriarcalismo rural desse "feudalismo tardio" que foi a formação da América Latina.
Enfim, na Idade Contemporânea, ao menos nos países "iluministas (*)", a campanha das "sufragetes" pelo voto feminino; a esmagadora mortandade de homens nos campos de batalha e as necessidades da indústria bélica entre os anos 10 e 40; o advento do consumo de massa; a invenção da pílula anticoncepcional; além da própria evolução cultural da humanidade, permitiram que as mulheres ocupassem todos os espaços da vida pública e privada, com possibilidade de escolhas individuais e participação nas decisões coletivas, ainda que enfrentando alguns desafios específicos muitas vezes diferentes dos desafios dos homens, entre eles o preconceito, as diferenças salariais, os diversos tipos de assédio e aquele que talvez seja o maior de todos: o de conciliar as suas "novas" funções com aquelas que sobrevivem desde o neolítico.
(*) A referência aos países iluministas tem dois motivos:
1 - Nas sociedades fundamentalistas, como os xiitas e os amish, a mulher é submetida à moral medieval.
2 - Entre as propostas socialistas do final do século XIX e do início do XX, circulava na Rússia a idéia da "esposa coletiva", que, partindo do pressuposto de que a mulher seria uma "propriedade", deveria ser então "socializada", executando, segundo um panfleto apócrifo russo do início do século XX: "suas funções e obrigações não em benefício de um único membro, mas da comuna como um todo".
Foi na Revolução Agrícola, na transição do paleolítico para o neolítico, que o papel da mulher ganhou as configurações que, até bem pouco tempo atrás, se impunham de maneira indiscutível na organização da maioria das sociedades, da Groenlândia ao Ártico, tanto à leste quanto à oeste de Greenwich. Afinal, conservadores até a medula, os machos se mantiveram caçando, pescando e coletando, enquanto as mulheres, além de se dedicarem à manutenção da caverna (e, a partir da citada transição, da palafita) e à proteção dos filhotes, agora também plantavam, colhiam, pastoreavam e, nas horas vagas, de ócio criativo, desenvolveram a cerâmica, a religião e, segundo algumas fontes, principalmente baseadas no crescente fértil e nos árias, até o calendário. A relação entre o neolítico e as mulheres é óbvia. Uma das fases mais criativas da humanidade, a importância dos rios e da fertilidade do solo para essa etapa e para o consequente surgimento da civilização colocavam o mito da "deusa mãe" no centro da cultura, entre 20.000 a.C. e o século V d.C. (entre o neolítico e a queda da antiguidade).
Na medida em que a civilização surgiu, e o poder político se estruturou, a função da mulher foi se restringindo ao lar, principalmente entre os povos mais belicistas mas, ainda assim, a necessidade de filhotes saudáveis em sociedades como a espartana e a romana conferiam um certo "status" à mulher.
No início da Idade Média, com a ascensão do monoteísmo - cristão no ocidente e, no oriente, islâmico - ambos escorados na visão hebraica, ganha importância a compreensão da mulher como "influência pejorativa" ou "instrumento da tentação", nas palavras de importantes teólogos da época, como Santo Agostinho, em suas "Confissões", ou no próprio Alcorão maometano (vide o mito de Eva, a história de Dalila ou a interpretação da vida de mulheres históricas como Maria Madalena ou Cleópatra).
A partir de então, fogueiras, burcas, cintos de castidade e outros instrumentos de repressão se tornaram presentes no cotidiano de mulheres pelo mundo inteiro.
Já na Idade Moderna, a partir da ascensão dos valores burgueses, entre eles o individualismo e o materialismo, as mulheres foram se tornando mão-de-obra e, posteriormente, mercado consumidor cada vez mais útil.
Na colonização da América, mulheres brancas eram raras e, nesse "viés", também valorizadas, ainda que submetidas à um dos piores tipos de patriarcalismo de todos os tempos - o patriarcalismo rural desse "feudalismo tardio" que foi a formação da América Latina.
Enfim, na Idade Contemporânea, ao menos nos países "iluministas (*)", a campanha das "sufragetes" pelo voto feminino; a esmagadora mortandade de homens nos campos de batalha e as necessidades da indústria bélica entre os anos 10 e 40; o advento do consumo de massa; a invenção da pílula anticoncepcional; além da própria evolução cultural da humanidade, permitiram que as mulheres ocupassem todos os espaços da vida pública e privada, com possibilidade de escolhas individuais e participação nas decisões coletivas, ainda que enfrentando alguns desafios específicos muitas vezes diferentes dos desafios dos homens, entre eles o preconceito, as diferenças salariais, os diversos tipos de assédio e aquele que talvez seja o maior de todos: o de conciliar as suas "novas" funções com aquelas que sobrevivem desde o neolítico.
(*) A referência aos países iluministas tem dois motivos:
1 - Nas sociedades fundamentalistas, como os xiitas e os amish, a mulher é submetida à moral medieval.
2 - Entre as propostas socialistas do final do século XIX e do início do XX, circulava na Rússia a idéia da "esposa coletiva", que, partindo do pressuposto de que a mulher seria uma "propriedade", deveria ser então "socializada", executando, segundo um panfleto apócrifo russo do início do século XX: "suas funções e obrigações não em benefício de um único membro, mas da comuna como um todo".
sábado, 14 de fevereiro de 2009
O outro
O incentivo explícito, por parte do governo Obama, para que os americanos comprem produtos nacionais, assim como, tanto nos EUA quanto na Europa, as campanhas para que os imigrantes sejam demitidos primeiro em função da crise, ignoram um dos princípios básicos do Estado Liberal: o mérito.
Afinal, cada um tem o direito de comprar o produto que bem entender, baseando-se única e exclusivamente na relação entre qualidade e preço, assim como os patrões devem (ou deveriam) optar, independente da "tribo" a que pertençam, por demitir os "menos produtivos", independente da cor da pele ou do local de nascimento.
Por outro lado, esse fenômeno - de rejeição ao outro, principalmente nos momentos críticos - longe de ser uma exceção, é a regra na História, em ordem decrescente de poder e prestígio étnico ou nacional. Vale destacar que, desde o surgimento do homo-sapiens, a rejeição e a hostilidade com o "estrangeiro" aumentam proporcionalmente à escassez de recursos materiais do território ocupado. E esse talvez seja o aspecto mais nefasto da crise, afinal, crises em si, segundo alguns dos maiores economistas do mundo, ocorrem de tempos em tempos no capitalismo, com menor ou maior intensidade.
Já a xenofobia e o racismo, fantasmas que pareciam ter sido drasticamente enfraquecidos, ainda que não derrotados, após a segunda metade do século XX, parecem agora estar se fortalecendo, alimentados pelo medo da recessão e pelo aparente exagero dos meios de comunicação sobre o tamanho do monstro.
De positivo para nós, brasileiros, fica o seguinte: Parece ser cada vez mais tentador ficar por aqui mesmo, usando os países centrais apenas como destino turístico, e não como meta para novo lar.
Tão óbvio quanto a esfericidade da Terra é a ininterruptibilidade da História, afinal, " tudo o que é sólido se desmancha no ar", ainda que, ao contrário do que pensava o autor da frase, a liberdade seja a principal ferramenta.
Afinal, cada um tem o direito de comprar o produto que bem entender, baseando-se única e exclusivamente na relação entre qualidade e preço, assim como os patrões devem (ou deveriam) optar, independente da "tribo" a que pertençam, por demitir os "menos produtivos", independente da cor da pele ou do local de nascimento.
Por outro lado, esse fenômeno - de rejeição ao outro, principalmente nos momentos críticos - longe de ser uma exceção, é a regra na História, em ordem decrescente de poder e prestígio étnico ou nacional. Vale destacar que, desde o surgimento do homo-sapiens, a rejeição e a hostilidade com o "estrangeiro" aumentam proporcionalmente à escassez de recursos materiais do território ocupado. E esse talvez seja o aspecto mais nefasto da crise, afinal, crises em si, segundo alguns dos maiores economistas do mundo, ocorrem de tempos em tempos no capitalismo, com menor ou maior intensidade.
Já a xenofobia e o racismo, fantasmas que pareciam ter sido drasticamente enfraquecidos, ainda que não derrotados, após a segunda metade do século XX, parecem agora estar se fortalecendo, alimentados pelo medo da recessão e pelo aparente exagero dos meios de comunicação sobre o tamanho do monstro.
De positivo para nós, brasileiros, fica o seguinte: Parece ser cada vez mais tentador ficar por aqui mesmo, usando os países centrais apenas como destino turístico, e não como meta para novo lar.
Tão óbvio quanto a esfericidade da Terra é a ininterruptibilidade da História, afinal, " tudo o que é sólido se desmancha no ar", ainda que, ao contrário do que pensava o autor da frase, a liberdade seja a principal ferramenta.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
Vidas Civis
Quanto vale uma vida civil? Seja ela palestina, americana, israelense ou iraquiana? O que distingue terrorismo de ação militar? O poder, a tecnologia ou a capacidade de marketing e o controle dos meios de comunicação?
O que separa um judeu massacrado de maneira desumana durante a segunda guerra e um palestino massacrado de maneira desumana na Faixa de Gaza?
O que separa (além de 5 séculos!) Hitler dos governos escravocratas da América, ou dos pioneiros do Oeste dos EUA?
Quanto vale a vida dos milhões de africanos portadores de HIV que correm o risco de ficar sem remédio graças ao interesse dos grandes laboratórios? E dos flagelados da seca nordestina? E a vida das mães e pais israelenses e palestinos que amargam uma sangrenta e diária guerra? E a vida dos iraquianos humilhados pelo sadismo de tropas privadas de mercenários e de guerreiros tribais xiitas e sunitas, quanto vale? E a vida dos desempregados da suposta crise financeira? E a vida dos cidadãos israelenses, libaneses, turcos, espanhóis, italianos, colombianos, argentinos e tantos outros, vítimas do terrorismo laico/religioso de direita/esquerda?
E a vida das vítimas das diversas ditaduras, quanto vale?
E a vida dos reféns das Farc?
Quanto vale uma vida civil?
É justo tomar partido? Existe o bem e o mal (também) na política?
De que rebanho você faz parte?
Na história, o que hoje parece verdade, amanhã pode se revelar só um jogo de cena.
O rebanho sempre tende a ir junto para o brejo ou o desfiladeiro. Quem se atrever a seguir a risca uma ideologia inevitavelmente irá se deparar com o fundamentalismo (geralmente nos momentos em que se torna impossível continuar a defender racionalmente o que se tem por verdade absoluta ou “revelação” – daí a repressão promovida por absolutismos quando no poder, como no caso das Revoluções jacobina, chinesa, russa ou iraniana, assim como nas sociedades em que a moral tradicional determina a vida social, como em algumas regiões de Israel, em parte dos países árabes ou entre os amish e os quakers da América do Norte).
O indivíduo, ao menos o que se faz livre da “moral de rebanho”, consegue circular nas “zonas cinza”, mesmo fora de sua “área de segurança”, e entender as circunstâncias, qualidades e defeitos da realidade que o cerca.
É a única moral possível, com o potencial de promover a cada um a possibilidade de buscar a plenitude de si mesmo.
O resto é propaganda.
O que separa um judeu massacrado de maneira desumana durante a segunda guerra e um palestino massacrado de maneira desumana na Faixa de Gaza?
O que separa (além de 5 séculos!) Hitler dos governos escravocratas da América, ou dos pioneiros do Oeste dos EUA?
Quanto vale a vida dos milhões de africanos portadores de HIV que correm o risco de ficar sem remédio graças ao interesse dos grandes laboratórios? E dos flagelados da seca nordestina? E a vida das mães e pais israelenses e palestinos que amargam uma sangrenta e diária guerra? E a vida dos iraquianos humilhados pelo sadismo de tropas privadas de mercenários e de guerreiros tribais xiitas e sunitas, quanto vale? E a vida dos desempregados da suposta crise financeira? E a vida dos cidadãos israelenses, libaneses, turcos, espanhóis, italianos, colombianos, argentinos e tantos outros, vítimas do terrorismo laico/religioso de direita/esquerda?
E a vida das vítimas das diversas ditaduras, quanto vale?
E a vida dos reféns das Farc?
Quanto vale uma vida civil?
É justo tomar partido? Existe o bem e o mal (também) na política?
De que rebanho você faz parte?
Na história, o que hoje parece verdade, amanhã pode se revelar só um jogo de cena.
O rebanho sempre tende a ir junto para o brejo ou o desfiladeiro. Quem se atrever a seguir a risca uma ideologia inevitavelmente irá se deparar com o fundamentalismo (geralmente nos momentos em que se torna impossível continuar a defender racionalmente o que se tem por verdade absoluta ou “revelação” – daí a repressão promovida por absolutismos quando no poder, como no caso das Revoluções jacobina, chinesa, russa ou iraniana, assim como nas sociedades em que a moral tradicional determina a vida social, como em algumas regiões de Israel, em parte dos países árabes ou entre os amish e os quakers da América do Norte).
O indivíduo, ao menos o que se faz livre da “moral de rebanho”, consegue circular nas “zonas cinza”, mesmo fora de sua “área de segurança”, e entender as circunstâncias, qualidades e defeitos da realidade que o cerca.
É a única moral possível, com o potencial de promover a cada um a possibilidade de buscar a plenitude de si mesmo.
O resto é propaganda.
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
É a velha História
A tendência dos meios de comunicação dos EUA e do mundo, principalmente os telejornais e os jornais impressos, em suas análises editoriais e redatoriais, de comparar o hoje empossado Obama à presidentes como Abraham Lincoln e John Kennedy, ainda que nem sempre seja honesta ou justa, principalmente quando se trata de Kennedy, o cara que iniciou a Guerra do Vietnã e quase possibilitou a (real) hecatombe nuclear, tem três características positivas.
A primeira é resgatar a memória do mais esquerdista presidente da história americana. Lincoln, além de tirar da elite latifundiária do país qualquer chance de manter os EUA na plantation (morram de inveja FHC e Lula), proteger a indústria nacional e abolir a escravidão, manteve o país unido em tempos geopoliticamente conturbados lá, aqui, na Europa e na Ásia/África colonial, ao mesmo tempo em que fez uma maciça reforma-agrária, o que lhe valeu até a pecha de comunista, nos primórdios da ideologia (deixemos por hora de lado o fato de que foi assassinado).
A segunda é buscar dar legitimidade ao primeiro presidente negro do país, já que, nos EUA, isso já é, em si, um fator de altíssimo risco ainda hoje (dos rednecks falamos outro dia).
A terceira e, ao meu ver, a mais esclarecedora, é a valorização (ou talvez o renascimento), do interesse em História. Já que a situação econômica do país remete aos anos (19)30 e a geopolítica aos (19)60/70, com o islã no lugar do socialismo, Obama não se furtou em mencionar, em seu discurso de posse, que "a História dos EUA nos servirá de exemplo" para enfrentar o que eles consideram os seus "desafios" mais urgentes (ou alguém acha que um gigante cai sem espernear?).
A História as vezes pode ajudar a mudar a si mesma. Se Hitler tivesse estudado mais a História da França não teria invadido a Rússia nas portas do inverno.
Vamos ver se, com Obama, os exemplos da História serão bem compreendidos e utilizados. E deixem o Kennedy na tumba.
A primeira é resgatar a memória do mais esquerdista presidente da história americana. Lincoln, além de tirar da elite latifundiária do país qualquer chance de manter os EUA na plantation (morram de inveja FHC e Lula), proteger a indústria nacional e abolir a escravidão, manteve o país unido em tempos geopoliticamente conturbados lá, aqui, na Europa e na Ásia/África colonial, ao mesmo tempo em que fez uma maciça reforma-agrária, o que lhe valeu até a pecha de comunista, nos primórdios da ideologia (deixemos por hora de lado o fato de que foi assassinado).
A segunda é buscar dar legitimidade ao primeiro presidente negro do país, já que, nos EUA, isso já é, em si, um fator de altíssimo risco ainda hoje (dos rednecks falamos outro dia).
A terceira e, ao meu ver, a mais esclarecedora, é a valorização (ou talvez o renascimento), do interesse em História. Já que a situação econômica do país remete aos anos (19)30 e a geopolítica aos (19)60/70, com o islã no lugar do socialismo, Obama não se furtou em mencionar, em seu discurso de posse, que "a História dos EUA nos servirá de exemplo" para enfrentar o que eles consideram os seus "desafios" mais urgentes (ou alguém acha que um gigante cai sem espernear?).
A História as vezes pode ajudar a mudar a si mesma. Se Hitler tivesse estudado mais a História da França não teria invadido a Rússia nas portas do inverno.
Vamos ver se, com Obama, os exemplos da História serão bem compreendidos e utilizados. E deixem o Kennedy na tumba.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
Você já foi à Gaza?
O pior inimigo de uma análise dialética do conflito entre israelenses e palestinos é o maniqueísmo. Ele mesmo, de quem os hebreus são os maiores expoentes, apesar de tê-lo aprendido com os persas. Afinal, todos sabem que, sob a acusação de deicídio, os judeus foram severamente perseguidos em todos os locais do mundo por onde se espalharam após a Diáspora imposta pelos romanos no ano 70. Antes ainda, no Egito ou na Babilônia, a sina dos hebreus sempre foi marginal e cruel, resultando no que Nietzsche denominou "rebelião escrava na moral" (assunto pra outra postagem). Sabemos também que o atual Estado de Israel foi criado de maneira unilateral pela ONU, após o holocausto da Alemanha nazista, ainda que a partilha de 1948 fosse muito mais justa do que a configuração atual do território, mas não tenha sido aceita pelos vizinhos árabes de Israel que, na época e pouco depois, prometerem "jogar os judeus no mar", e só não o fizeram devido ao apoio que França, Inglaterra e EUA deram aos israelenses. A reação dos árabes na época nos remete à outro ponto: Israel não tem o direito de existir? Penso que tem e sei que, se os árabes do Hamas tivessem metade do poder de Israel não encerrariam suas incursões militares antes de ver o último judeu dar seu último suspiro, e isso, parece que parte da opinião pública mundial não quer reconhecer.
Somado à esse instrínseco jogo geopolítico entra a questão da religião, já que parece que tanto Jeová quanto Aláh entendiam que Canaã pertencia aos "seus" e não se discute baseado na razão com pessoas movidas pelo fanatismo ou pela fé exacerbada e jihadista (cruzadista ou coisa que o valha).
Sendo assim, não parece ser possível, ao menos de maneira honesta, tomar partido de um lado ou de outro sem cometer injustiças, nem para aqueles que dedicaram sua vida ao estudo do Oriente Médio. Resta-nos lamentar as dores e perdas impostas à civis inocentes, de um lado e do outro.
O que se sabe com certeza é que a maior derrotada é a ONU que, após criar e defender por décadas Israel, hoje é ignorada pelo próprio "filho".
É por essas e por outras que Jim Morrison dizia que o "west is the best" e Churchill afirmava que a democracia é o "'menos pior' dos modelos até hoje experimentados".
Da minha parte, apesar de todos os defeitos e inconvenientes, agradeço todos os dias por viver no Ocidente.
Feliz 2009!
Somado à esse instrínseco jogo geopolítico entra a questão da religião, já que parece que tanto Jeová quanto Aláh entendiam que Canaã pertencia aos "seus" e não se discute baseado na razão com pessoas movidas pelo fanatismo ou pela fé exacerbada e jihadista (cruzadista ou coisa que o valha).
Sendo assim, não parece ser possível, ao menos de maneira honesta, tomar partido de um lado ou de outro sem cometer injustiças, nem para aqueles que dedicaram sua vida ao estudo do Oriente Médio. Resta-nos lamentar as dores e perdas impostas à civis inocentes, de um lado e do outro.
O que se sabe com certeza é que a maior derrotada é a ONU que, após criar e defender por décadas Israel, hoje é ignorada pelo próprio "filho".
É por essas e por outras que Jim Morrison dizia que o "west is the best" e Churchill afirmava que a democracia é o "'menos pior' dos modelos até hoje experimentados".
Da minha parte, apesar de todos os defeitos e inconvenientes, agradeço todos os dias por viver no Ocidente.
Feliz 2009!
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
Socialismo real ou caixa de Skinner?
Segundo anedota popular no leste europeu em meados do século XX, dois comunistas estavam questionando, em uma das "internacionais", se Lênin era mais político ou mais cientista.
Já depois de muita discussão, questões de ordem e argumentações acaloradas, o camarada Rabinovitch, que acabara de chegar, pede a palavra e afirma, encerrando a conversa:
"Pra mim, está na cara que ele era político, afinal, se fosse cientista, teria testado antes em ratinhos brancos"!
Já depois de muita discussão, questões de ordem e argumentações acaloradas, o camarada Rabinovitch, que acabara de chegar, pede a palavra e afirma, encerrando a conversa:
"Pra mim, está na cara que ele era político, afinal, se fosse cientista, teria testado antes em ratinhos brancos"!
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