quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Política austera

Diversos governos da Europa vêm promovendo cortes significativos nos gastos públicos, embalados por medidas de austeridade fiscal necessárias não somente à sua própria saúde financeira, mas à saúde financeira global. Essas medidas incluem desde a redução do efetivo e do orçamento militar até a redução do número de funcionários públicos, além da revisão da legislação relativa à aposentadoria, seguro desemprego e outros benefícios e direitos sociais.
A postura dos governos de países como Inglaterra, Grécia e França geraram reações muitas vezes violentas por parte de grupos sociais específicos. Na maioria dos casos, essas manifestações exigem que direitos adquiridos e regulamentações tradicionais não sofram modificações que prejudiquem, principalmente, os que mais precisam do amparo do Estado.
Por outro lado, presidentes, primeiros-ministros e ministros argumentam que, sem essas medidas, a falência do Estado se torna eminente, frente às grandes mudanças que a economia e a geopolítica mundial vêm sofrendo.
Esse será o grande desafio dos governantes dos países ricos nas próximas décadas: conciliar austeridade financeira com bem estar social de maneira que não destruam, por si mesmos, nem os cofres públicos nem sua base eleitoral. Muitos analistas consideram essa uma missão impossível.

sábado, 9 de outubro de 2010

Democracia positivista

Os fundadores da República brasileira, no final do século XIX, eram, em sua maioria, adeptos da filosofia positivista de Auguste Comte. Simplificando, esse pensamento defende basicamente a idéia de que alguns poucos esclarecidos teriam não somente o direito, mas também o dever de guiar a população comum, considerada sem conhecimento, na busca pelo progresso. Esse pensamento está grafado em nossa bandeira nacional através do lema “Ordem e Progresso”.
Em algumas eleições, inclusive na do último domingo, indivíduos e grupos específicos, ao se depararem com o “recado” das urnas, costumam se referir aos mesmos argumentos do século XIX para justificar aquilo que, muitas vezes, contraria suas opiniões e interesses. Manifestam assim, ainda que involuntariamente, preconceitos positivistas do século retrasado.
Nenhum dos maiores grupos políticos do país saiu totalmente vencedor ou totalmente derrotado das eleições. O equilíbrio observado só reforça a democracia e o povo (que somos todos nós), apesar dos milhões de votos para candidatos “controversos”, merece o direito de escolher.
Qualificar essa escolha depende de investimentos bem aplicados em educação e cultura.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Válvula de escape

Celebrar o carnaval é reafirmar o direito inalienável do brasileiro à liberdade. Afinal, gostando ou não do evento, a folia pagã do carnaval contagia e, direta ou indiretamente, afeta a vida de todos os brasileiros, em uma celebração coletiva significante, ainda que efêmera.
Em outros tempos, entre os períodos da colônia e do império, o corso (ou entrudo) – originado dos “4 dias bobos” anteriores à quaresma, trazidos da tradição lusitana – brancos e negros, senhores e escravos, homens e mulheres trocavam de papel e o patriarcalismo escravista do país era deixado de lado em breves momentos de “integração” e euforia coletiva.
Os espaços delimitados da tradição aristocrática eram simbolicamente rompidos, representando alegoricamente o ideal da nação unida e da identidade coletiva construída.
Nesses momentos, assim como nas poucas festas “mundanas” da Europa medieval – como a “Farra do Bobo” – as pessoas comuns usufruem da liberdade que, na maior parte do tempo, ou não possuem ou acreditam não possuir. Já os aristocratas costumavam aceitar e participar da farra, afinal, todos sabem que, na engenharia social, sempre é necessária uma “válvula de escape”.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Historiadora retrata Helena, a mulher que "causou" a guerra de Troia

REINALDO JOSÉ LOPES
da Folha de S. Paulo

A Grécia do fim da Idade do Bronze era um lugar tão esquisito que um viajante do tempo familiarizado com os gregos da época de Sócrates e Platão provavelmente ia achar que se perdeu num universo paralelo.

Em vez de filosofia, participação popular na política e soldados-cidadãos, o turista temporal ia se deparar com templos-palácios suntuosos, túmulos faraônicos para a nobreza, escribas controlando a distribuição de cada bezerro e cada grão de cevada.

As pessoas já falavam uma forma arcaica de grego, mas, tirando isso, seria possível jurar que eram babilônios ou egípcios. Nesse mundo, diz Bettany Hughes, viveu a lendária Helena de Troia.

Hughes, historiadora por Oxford, conseguiu construir uma narrativa erudita e envolvente em "Helena de Troia", recém-lançado no Brasil.

Ao tentar investigar a existência de uma "Helena histórica" (mais ou menos como outros tentam recriar o "Jesus histórico" ou o "Sócrates histórico"), a historiadora anda com desteza pelas ondas de choque que surgem do mito da mulher mais bela do mundo.

Espartanas da época clássica, turistas romanos, pintores vitorianos e poetas modernistas --todos, em alguma medida, transformaram Helena em musa.

Mas, para Hughes, o melhor modelo para entender a personagem de Homero são as aristocratas do Egeu na Idade do Bronze tardia, pouco antes do ano 1200 a.C. Elas eram, de fato, retratadas de forma que faria corar suas descendentes mais recatadas --e indefesas-- do período clássico da Grécia.

Poderosas

Afrescos, joias e objetos de arte deixados pela civilização micênica, como é conhecida essa versão "faraônica" da cultura grega por causa de Micenas, seu principal centro, sugerem um papel social significativo para mulheres belas e imponentes.

Seguindo, ao que tudo indica, a moda cretense (povo anterior que os gregos micênicos conquistaram e absorveram culturalmente), muitas delas aparecem com corpetes apertadíssimos que deixavam os seios descobertos --às vezes com mamilos realçados por maquiagem.

Cenas que parecem ser de rituais, envolvendo espadas, joias, o Sol e a Lua, árvores e danças enigmáticas, também são quase sempre protagonizadas por mulheres nos afrescos micênicos.

Uma das damas é retratada com armadura completa e elmo feito de presas de javali na cabeça --apetrecho guerreiro que, em outros exemplos de arte micênica, só aparece associado a homens.

Assim como outros, Hughes postula que as mulheres micênicas tinham o papel de senhoras e sacerdotisas da fertilidade (daí o holofote iconográfico sobre suas curvas e seios), o que lhes conferia prestígio político.

A beleza e a feminilidade da Helena do mito, portanto, sinalizaria algo mais do que mera estética: uma dama poderosa, talvez com status semidivino, venerada por seus súditos.

A segunda peça importante do quebra-cabeças da "Helena histórica" fica do lado leste do estreito de Dardanelos. Escavações na Turquia ao longo dos séculos 19 e 20 revelaram que a localização atribuída tradicionalmente a Troia realmente abrigava uma cidadela imponente no fim da Idade do Bronze, e que a fortaleza foi destruída por volta de 1200 a.C.

Textos nos arquivos do Império Hitita, então estabelecido mais para o interior turco, sugerem que a área de Troia era um ponto de tensão entre micênicos e hititas. Assim, não seria inconcebível que Troia tivesse mesmo sido destruída por atacantes gregos, usando a bela Helena como pretexto.

Dificuldades

O quadro geral faz um bocado de sentido, mas é nesse ponto que a musa de Hughes acaba deixando a historiadora na mão. É um bocado difícil fazer o salto entre os incidentes e personagens específicos de Homero na Ilíada e o quadro relativamente impessoal das relações entre micênicos e asiáticos que aparece nos arquivos hititas.

E certamente não há quaisquer referências diretas a Helena, seu marido corneado Menelau e os guerreiros gregos Aquiles e Odisseu (Ulisses) nos textos diplomáticos do Império Hitita.

Também é possível interpretar a iconografia "feminista" dos micênicos como mero peso morto cultural, já que eles copiaram avidamente os sofisticados cretenses (assim como, mais tarde, os romanos copiaram os gregos) sem necessariamente aderir aos mesmos valores sobre o papel das mulheres.

Por último, como a própria Hughes relata, os palácios micênicos na Grécia continental, bem como outras cidadelas poderosas do Mediterrâneo Oriental, acabaram tendo o mesmo destino de Troia no espaço de uma ou duas gerações: foram arrasadas por aparentes invasores. Não é impossível que, na verdade, os micênicos tenham sido apenas vítimas, tal como os troianos.

Nenhum desses pecadilhos, no entanto, tira o sabor da obra. Tal como na guerra de Troia, Helena é um belo pretexto para um cenário muito maior e mais fascinante do que ela própria.

sábado, 28 de novembro de 2009

Párias e políticos

Ainda que alguns analistas e veículos, como o New York Times, tenham considerado que a recepção ao presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, tenha sido uma espécie de afronta do Brasil aos EUA, como um recado segundo o qual o Itamarati assinalaria com a mensagem “fazemos o que queremos”, outras fontes, repercutidas na Folha de São Paulo por Clóvis Rossi, consideram que o Brasil, na verdade, estaria tomando uma atitude de sutil alinhamento com os interesses das grandes potências mundiais.
Afinal, a ONU, enquanto instituição, e o próprio presidente norteamericano, Barack Obama, em diversas ocasiões exortaram o governo brasileiro a utilizar o seu próprio exemplo para convencer o Irã de que Urânio pode ser enriquecido sem problemas, desde que para fins pacíficos. O Brasil possui quase toda a tecnologia necessária para a bomba atômica, mas opta pela utilização do recurso apenas para a produção de energia.
Assim, Lula, que também recebeu os presidentes de Israel e da Autoridade Nacional Palestina (ANP) nas últimas semanas, estaria apenas fazendo o que lhe foi pedido: dialogando com um dos maiores párias da política mundial para convencê-lo a ser mais “paz e amor”.
Capital político para isso nosso presidente tem... e de sobra.
Quanto à outras questões importantes, como a existência legítima de Israel, a verdade histórica do holocausto ou o apoio ao terrorismo islâmico, temas que envolvem direta ou indiretamente o Irã, pelo menos desde a Revolução Islâmica do aiatolá Khomeini, mentor espiritual de Mahmoud, toda a comunidade internacional conhece, e bem, a posição do Brasil. Não é uma visita oficial que mudará nossa tendência histórica à tolerância e ao dialógo.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

15 e 20 de novembro


O mês de novembro é um mês, do ponto de vista cívico, extremamente importante no Brasil. É em novembro que comemoramos um dos mais importantes passos de nossa história em direção à construção de uma realidade democrática e pluralista, a Proclamação da República. É também em novembro que, relembrando a morte de Zumbi, sucessor de Ganga Zumba como rei do Mocambo do Macaco, sede da imensa comunidade denominada Quilombo dos Palmares, se comemora no Brasil o Dia da Consciência Negra. Dia voltado à reflexão sobre o papel do negro em nossa sociedade e sua importância na construção de nossa identidade.
Ainda que sutil, a semelhança entre essas duas datas cívicas é bem maior do que se imagina, afinal, o ideal republicano é o ideal da inclusão, uma vez que o modelo escravista e estamental não condiz com os princípios da ideologia iluminista, que defende a organização republicana como alternativa ao despotismo.
Nos EUA, a contradição entre república e escravismo foi uma das causas da Guerra de Secessão, que libertou os escravos naquele país. No Brasil, a Abolição e a República foram determinadas com pouco mais de um ano de distância (13 de maio de 1888 e 15 de novembro de 1889).
Construir um país no qual brancos e negros, independentemente de sua posição social ou opção religiosa, possam conviver em harmonia e partilhar das mesmas oportunidades é sim, um ideal que se “alevanta” tanto no 15 quanto no 20 de novembro, e esse ideal deve ser sempre a bandeira de uma nação que é, ou pretende ser, moderna.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Utopus

E se o apagão de ontem fosse mundial e de 15 dias? A ONU podia aderir e promover essa ideia a cada 10 anos. 15 dias de higiene mental. Sem influência externa e nem energia gerada para que cada um pudesse mergulhar em si mesmo e compreender a condição humana. Seríamos confrontados com o auto-conhecimento.

República Verde-Oliva

Na hipótese de que o anseio da parcela mais radicalmente à direita da sociedade brasileira seja atendido, não seria a primeira vez que u...