Nunca tanta gente viveu tão bem no mundo. É fato, por mais espantoso que possa parecer. Apesar de todas as tragédias que ainda assombram parte da humanidade e da velocidade com que essas tragédias chegam até o nosso conhecimento através dos meios de comunicação, a verdade é que nunca, em nenhum momento da história, tanta gente viveu tão bem ou, no mínimo, com tanta segurança alimentar como hoje em dia.
É só voltar poucos anos no tempo e pensar como era a vida em países como Itália, Inglaterra, França ou Alemanha há cem anos atrás, para a maioria da população, e depois comparar com a realidade desses países hoje, mesmo para os mais pobres entre seus habitantes. No Brasil então, nem se fala. Há pouco mais de cem anos a Avenida Paulista não era nem asfaltada, hoje é um dos mais caros “metro quadrado” do país.
Ainda que falte muito para atingirmos um nível humanamente aceitável para a maioria dos brasileiros, é só compararmos os indicadores sociais do país nos anos de 1910, 20, 30, 40... e assim por diante, até 2000, para vermos a enorme evolução em relação há alfabetização, expectativa de vida, saneamento básico (ainda um dos maiores problemas) e mortalidade infantil, entre outros itens.
Ainda assim, há julgar pelo que se vê na televisão, principalmente em alguns programas “jornalísticos”, parece que vivemos no pior dos mundos.
A cobertura obsessiva e sensacionalista de eventos negativos por alguns setores da mídia, como no caso da gripe “suína”, parecem refletir uma certa ansiedade pelo perigo do imprevisto em uma civilização cada vez mais pautada pela estabilidade.
quinta-feira, 7 de maio de 2009
terça-feira, 21 de abril de 2009
O Presidente Paraguaio
O presidente paraguaio, Fernando Lugo, é um canalha!
Ainda que avesso à "categoricismos", é inevitável resistir à tentação dessa afirmação mais do que óbvia.
Afinal, Lugo era um membro da Igreja Católica paraguaia, bispo da diocese de San Pedro e conhecido como "bispo dos pobres". Quando resolveu entrar para a política, Lugo entrou com um pedido de dispensa clerical e, após ser candidato à presidente, conseguiu a tal dispensa, sendo eleito para governar o país fronteiriço com o Brasil. Ainda assim, Lugo continua usando o acessório branco na gola das camisas (o qual me foge o nome), como se fosse algum tipo de sacerdote, provavelmente para gerar mais confusão ainda na cabeça de seus eleitores mais humildes ou menos esclarecidos (padre comunista ou comunista padre?).
Até aí, (quase) tudo bem.
Mas o pior vem depois.
Após a confirmação de que um filho seu, ilegítimo, ou seja, não reconhecido, vivia em estado de pobreza ao lado da mãe, que teve um caso com Lugo quando este ainda era bispo e, após o exame de DNA provar cientificamente o parentesco com Lugo, outros casos estão surgindo de mães extremamente pobres que se dizem ex-amantes do tal presidente e, em todos os casos, estas mães aceitaram a realização de exames de DNA em seus filhos para confirmar a paternidade de Lugo em relação à eles, nascidos logo após os citados "casos". A maioria delas é composta por mulheres humildes que foram pedir algum tipo de auxílio à Lugo quando ele ainda era o "bispo dos pobres" de San Pedro.
Não se trata aqui de discutir a questão do celibato clerical, com o qual pouco importa se eu concordo ou não (e não concordo), uma vez que não sou clérigo e nem vou à Igreja, ainda que defenda a liberdade religiosa (assim como qualquer outra). Não se trata também de um discurso moralista, uma vez que concordo com Freud sobre a relação entre querer poder e querer aumentar sua oferta sexual (Zeus é meu deus favorito).
Se trata, na verdade, de questionar o quanto de "amor ao próximo" ou de "responsabilidade social" tem um homem que, ao se aproveitar de mulheres pobres que precisavam de seu auxílio, ignora e deixa na pobreza seus próprios filhos, os quais só reconhece por ordem judicial. Afinal, por quem pode se responsabilizar quem não se responsabiliza nem pelos seus?
De coerente nesse caso, só uma coisa: o clérigo Lugo não usava camisinha.
Ainda que avesso à "categoricismos", é inevitável resistir à tentação dessa afirmação mais do que óbvia.
Afinal, Lugo era um membro da Igreja Católica paraguaia, bispo da diocese de San Pedro e conhecido como "bispo dos pobres". Quando resolveu entrar para a política, Lugo entrou com um pedido de dispensa clerical e, após ser candidato à presidente, conseguiu a tal dispensa, sendo eleito para governar o país fronteiriço com o Brasil. Ainda assim, Lugo continua usando o acessório branco na gola das camisas (o qual me foge o nome), como se fosse algum tipo de sacerdote, provavelmente para gerar mais confusão ainda na cabeça de seus eleitores mais humildes ou menos esclarecidos (padre comunista ou comunista padre?).
Até aí, (quase) tudo bem.
Mas o pior vem depois.
Após a confirmação de que um filho seu, ilegítimo, ou seja, não reconhecido, vivia em estado de pobreza ao lado da mãe, que teve um caso com Lugo quando este ainda era bispo e, após o exame de DNA provar cientificamente o parentesco com Lugo, outros casos estão surgindo de mães extremamente pobres que se dizem ex-amantes do tal presidente e, em todos os casos, estas mães aceitaram a realização de exames de DNA em seus filhos para confirmar a paternidade de Lugo em relação à eles, nascidos logo após os citados "casos". A maioria delas é composta por mulheres humildes que foram pedir algum tipo de auxílio à Lugo quando ele ainda era o "bispo dos pobres" de San Pedro.
Não se trata aqui de discutir a questão do celibato clerical, com o qual pouco importa se eu concordo ou não (e não concordo), uma vez que não sou clérigo e nem vou à Igreja, ainda que defenda a liberdade religiosa (assim como qualquer outra). Não se trata também de um discurso moralista, uma vez que concordo com Freud sobre a relação entre querer poder e querer aumentar sua oferta sexual (Zeus é meu deus favorito).
Se trata, na verdade, de questionar o quanto de "amor ao próximo" ou de "responsabilidade social" tem um homem que, ao se aproveitar de mulheres pobres que precisavam de seu auxílio, ignora e deixa na pobreza seus próprios filhos, os quais só reconhece por ordem judicial. Afinal, por quem pode se responsabilizar quem não se responsabiliza nem pelos seus?
De coerente nesse caso, só uma coisa: o clérigo Lugo não usava camisinha.
sexta-feira, 10 de abril de 2009
Chávez com nhoque (Folha de São Paulo - 09/04/2009)
por: CONTARDO CALLIGARIS
NUM DOMINGO ITALIANO do fim dos anos 50, minha família estava reunida para o almoço. Minha avó materna servia nhoque feito em casa. Detalhe: nos anos 30 e sobretudo durante a guerra, meu avô materno não tinha sido fascista militante, mas tampouco ele tinha resistido. Ele fora passivo e um tanto gregário, enquanto meu pai, liberal e social-democrata, tinha encarado o inimigo.Essa diferença, em geral, não produzia faíscas, mas, naquela ocasião, meu avô, descontente com o governo da época, esboçou uma pequena lista dos "benefícios" do fascismo: vantagens trabalhistas, sindicatos corporativos, grandes obras, saneamento da planície do sul do Lazio (a região de Roma). Pena, ele acrescentou, que isso tivesse nos levado à guerra e à aliança com a Alemanha nazista. Houve um silêncio consternado dos meus pais, que forçou meu avô a continuar a enumeração dos custos de tamanhos "benefícios". Mastigando nhoque, ele resmungou alguma coisa sobre a aventura africana, a censura, a prisão e o confinamento dos opositores, as leis raciais etc.. Meu pai perguntou: "E, para sanear pântanos e instituir sindicatos, era preciso tudo isso?". A pergunta pairou no ar, sem resposta. O nhoque, ao se desfazer em nossa boca, ficou pastoso e chocho. Desde então, em meu vocabulário íntimo, a expressão "discurso de nhoque" designa toda conversa que salienta os benefícios de um regime e silencia ou minimiza seu lado sinistro, com o pressuposto de que o lado sinistro seja um custo "necessário". Nos anos 60, pratiquei bastante o discurso de nhoque. Militante de esquerda, assolado pelas notícias sobre a falta de liberdade do outro lado da "Cortina de Ferro", eu geralmente respondia: "Liberdade de quê? De morrer de fome?" -como se a liberdade fosse o preço que se paga normalmente para poder comer. À força de viajar pelos países do bloco socialista, percebi que, quase sempre, o discurso de nhoque é a fala do turista, que vai voltar sem problemas para seu país. Quem paga seu pão com a renúncia a poder viajar, expressar-se, reunir-se etc., em geral, perde a fome. Gostei cada vez menos do discurso de nhoque. Chego a um almoço de alguns dias atrás. Por fatalidade, um amigo trouxera uma iguaria: nhoque recheado. Nhoque vai nhoque vem, dois comensais começaram a falar de Hugo Chávez e dos "benefícios" de seu regime. Como era de esperar (considerando o que estava na mesa), foi em tom de nhoque: claro que há o que dizer sobre a truculência de Chávez, mas olhem para os benefícios! Mais uma vez, como se fosse "normal" que os benefícios se pagassem pela truculência. Ora, vivemos dias interessantes: pelo mundo afora, discute-se sobre a sociedade que queremos. E talvez, à força de errar, a gente tenha aprendido a pensar além da alternativa simplista entre, de um lado, a liberdade absoluta dos agentes econômicos e, do outro lado, o "Estado forte". Hoje, em tese, sabemos que, para evitar a maracutaia financeira, não é necessário que os agricultores sejam impedidos de vender livremente suas batatas no mercado da vila (estou exagerando? Pergunte aos pequenos produtores cubanos). Reciprocamente, para evitar a opressão do Estado e dos "partidos únicos", não é necessário recusar assistências e garantias coletivas (estou exagerando? Pergunte aos milhões de norte-americanos sem seguro médico). Mas continua grande a tentação do discurso de nhoque, pelo qual nada do que queremos pode acontecer sem a contrapartida de uma renúncia penosa. Daqui a pouco, um economista da Goldman Sachs nos explicará que, para sair da crise, precisamos aceitar um partido único de tipo chinês. De onde vem a força do discurso de nhoque? Freud observou que, quando se trata de reprimir nosso próprio querer, sempre tendemos a reprimir muito mais do que é preciso.Por exemplo, estou a fim de transar com todo o mundo, mas também quero ser um marido ou uma esposa fiel? Pois é, desisto do sexo de vez, entrando num convento. Ou, então, estou cansado da insegurança nas nossas ruas; para facilitar e garantir o policiamento, topo que todos sejamos presos e vivamos numa prisão. O que fazer contra o discurso de nhoque? A receita é dos anos 60. Não acredite nas alternativas excludentes (pão OU liberdade) e peça alegremente o "impossível": pão COM liberdade. Não se preocupe: na maioria dos casos, entre os dois, não há contradição alguma.
NUM DOMINGO ITALIANO do fim dos anos 50, minha família estava reunida para o almoço. Minha avó materna servia nhoque feito em casa. Detalhe: nos anos 30 e sobretudo durante a guerra, meu avô materno não tinha sido fascista militante, mas tampouco ele tinha resistido. Ele fora passivo e um tanto gregário, enquanto meu pai, liberal e social-democrata, tinha encarado o inimigo.Essa diferença, em geral, não produzia faíscas, mas, naquela ocasião, meu avô, descontente com o governo da época, esboçou uma pequena lista dos "benefícios" do fascismo: vantagens trabalhistas, sindicatos corporativos, grandes obras, saneamento da planície do sul do Lazio (a região de Roma). Pena, ele acrescentou, que isso tivesse nos levado à guerra e à aliança com a Alemanha nazista. Houve um silêncio consternado dos meus pais, que forçou meu avô a continuar a enumeração dos custos de tamanhos "benefícios". Mastigando nhoque, ele resmungou alguma coisa sobre a aventura africana, a censura, a prisão e o confinamento dos opositores, as leis raciais etc.. Meu pai perguntou: "E, para sanear pântanos e instituir sindicatos, era preciso tudo isso?". A pergunta pairou no ar, sem resposta. O nhoque, ao se desfazer em nossa boca, ficou pastoso e chocho. Desde então, em meu vocabulário íntimo, a expressão "discurso de nhoque" designa toda conversa que salienta os benefícios de um regime e silencia ou minimiza seu lado sinistro, com o pressuposto de que o lado sinistro seja um custo "necessário". Nos anos 60, pratiquei bastante o discurso de nhoque. Militante de esquerda, assolado pelas notícias sobre a falta de liberdade do outro lado da "Cortina de Ferro", eu geralmente respondia: "Liberdade de quê? De morrer de fome?" -como se a liberdade fosse o preço que se paga normalmente para poder comer. À força de viajar pelos países do bloco socialista, percebi que, quase sempre, o discurso de nhoque é a fala do turista, que vai voltar sem problemas para seu país. Quem paga seu pão com a renúncia a poder viajar, expressar-se, reunir-se etc., em geral, perde a fome. Gostei cada vez menos do discurso de nhoque. Chego a um almoço de alguns dias atrás. Por fatalidade, um amigo trouxera uma iguaria: nhoque recheado. Nhoque vai nhoque vem, dois comensais começaram a falar de Hugo Chávez e dos "benefícios" de seu regime. Como era de esperar (considerando o que estava na mesa), foi em tom de nhoque: claro que há o que dizer sobre a truculência de Chávez, mas olhem para os benefícios! Mais uma vez, como se fosse "normal" que os benefícios se pagassem pela truculência. Ora, vivemos dias interessantes: pelo mundo afora, discute-se sobre a sociedade que queremos. E talvez, à força de errar, a gente tenha aprendido a pensar além da alternativa simplista entre, de um lado, a liberdade absoluta dos agentes econômicos e, do outro lado, o "Estado forte". Hoje, em tese, sabemos que, para evitar a maracutaia financeira, não é necessário que os agricultores sejam impedidos de vender livremente suas batatas no mercado da vila (estou exagerando? Pergunte aos pequenos produtores cubanos). Reciprocamente, para evitar a opressão do Estado e dos "partidos únicos", não é necessário recusar assistências e garantias coletivas (estou exagerando? Pergunte aos milhões de norte-americanos sem seguro médico). Mas continua grande a tentação do discurso de nhoque, pelo qual nada do que queremos pode acontecer sem a contrapartida de uma renúncia penosa. Daqui a pouco, um economista da Goldman Sachs nos explicará que, para sair da crise, precisamos aceitar um partido único de tipo chinês. De onde vem a força do discurso de nhoque? Freud observou que, quando se trata de reprimir nosso próprio querer, sempre tendemos a reprimir muito mais do que é preciso.Por exemplo, estou a fim de transar com todo o mundo, mas também quero ser um marido ou uma esposa fiel? Pois é, desisto do sexo de vez, entrando num convento. Ou, então, estou cansado da insegurança nas nossas ruas; para facilitar e garantir o policiamento, topo que todos sejamos presos e vivamos numa prisão. O que fazer contra o discurso de nhoque? A receita é dos anos 60. Não acredite nas alternativas excludentes (pão OU liberdade) e peça alegremente o "impossível": pão COM liberdade. Não se preocupe: na maioria dos casos, entre os dois, não há contradição alguma.
terça-feira, 31 de março de 2009
Dilema Moral
Pra pensar na cama:
Imagine você e um outro ser humano - que você acabou de conhecer - vagando perdidos em pleno deserto.
Eis que aparece uma entidade mágica, uma espécie de "gênio", ou santo, e oferece um copo de água fazendo a seguinte afirmação: "Se cada um beber metade, os dois morrem. Se um de vocês bebê-lo todo, sobrevive". Em seguida o tal do "sobrenatural" desaparece. Ponto.
Qual é a atitude moralmente correta a tomar?
PS: Moral é uma palavra ampla, não serve apenas para identificar a "nossa" moral, aquela que as avós nos ensinaram. Nesse caso, o termo correto seria algo como "moral vigente", o que não é o caso, já que a pergunta não se restringe a nenhum tipo específico de moral. Afinal, a questão é: O que você faria?
Imagine você e um outro ser humano - que você acabou de conhecer - vagando perdidos em pleno deserto.
Eis que aparece uma entidade mágica, uma espécie de "gênio", ou santo, e oferece um copo de água fazendo a seguinte afirmação: "Se cada um beber metade, os dois morrem. Se um de vocês bebê-lo todo, sobrevive". Em seguida o tal do "sobrenatural" desaparece. Ponto.
Qual é a atitude moralmente correta a tomar?
PS: Moral é uma palavra ampla, não serve apenas para identificar a "nossa" moral, aquela que as avós nos ensinaram. Nesse caso, o termo correto seria algo como "moral vigente", o que não é o caso, já que a pergunta não se restringe a nenhum tipo específico de moral. Afinal, a questão é: O que você faria?
Felicidade
Ao contrário da maioria dos outros animais, os humanos nunca vivem o presente. Cada um de seus momentos está sempre preenchido por uma enorme dose de passado e de futuro.
domingo, 15 de março de 2009
Pensando o Impensável (por Clóvis Rossi)
artigo publicado na Folha de São Paulo em 14/03/2009 por Clóvis Rossi
Teste para o leitor: se você ler que um importante líder político está dizendo que um determinado país deve "manter sua credibilidade, honrar seus compromissos e garantir os ativos de nosso país", vai imediatamente pensar que alguém está falando em risco de calote no Brasil, na Argentina, na Venezuela ou em algum outro exótico país tropical, certo? Era certo até uns anos atrás. Agora, a frase, literalmente reproduzida, é do primeiro-ministro chinês Wen Jiabao, e o alvo são, sim, os Estados Unidos da América. "Nós emprestamos uma enorme quantia de dinheiro aos Estados Unidos e, naturalmente, estamos preocupados com a segurança de nossos ativos", disse Wen. Calcula-se que dois terços dos praticamente US$ 2 trilhões de reservas da China estão em ativos norte-americanos, especialmente títulos do Tesouro. É natural, portanto, que estejam preocupados. Mas não pense que é apenas aquela velha história de que quem não dorme à noite é o credor, nunca o devedor. Desde que a crise global se agravou, a partir do último trimestre do ano passado, a palavra calote, associada a Estados Unidos, começou a aparecer aqui e ali, a princípio timidamente. Quando a possibilidade de um calote foi mencionada no endereço do Council on Foreign Relations, talvez o principal centro de pesquisas de política internacional do planeta, aí a coisa ficou realmente assustadora. Não sei se alguém já parou para estudar as consequências desse cenário de pesadelo. O fato é que Wen Jiabao acrescentou que a primeira prioridade da China é defender os seus próprios interesses, ainda que com o outro olho na estabilidade financeira internacional, coisas que são "interrelacionadas". É um aceno no sentido de que a China pode parar de financiar os EUA? Se for, quem vai perder o sono somos todos.
Teste para o leitor: se você ler que um importante líder político está dizendo que um determinado país deve "manter sua credibilidade, honrar seus compromissos e garantir os ativos de nosso país", vai imediatamente pensar que alguém está falando em risco de calote no Brasil, na Argentina, na Venezuela ou em algum outro exótico país tropical, certo? Era certo até uns anos atrás. Agora, a frase, literalmente reproduzida, é do primeiro-ministro chinês Wen Jiabao, e o alvo são, sim, os Estados Unidos da América. "Nós emprestamos uma enorme quantia de dinheiro aos Estados Unidos e, naturalmente, estamos preocupados com a segurança de nossos ativos", disse Wen. Calcula-se que dois terços dos praticamente US$ 2 trilhões de reservas da China estão em ativos norte-americanos, especialmente títulos do Tesouro. É natural, portanto, que estejam preocupados. Mas não pense que é apenas aquela velha história de que quem não dorme à noite é o credor, nunca o devedor. Desde que a crise global se agravou, a partir do último trimestre do ano passado, a palavra calote, associada a Estados Unidos, começou a aparecer aqui e ali, a princípio timidamente. Quando a possibilidade de um calote foi mencionada no endereço do Council on Foreign Relations, talvez o principal centro de pesquisas de política internacional do planeta, aí a coisa ficou realmente assustadora. Não sei se alguém já parou para estudar as consequências desse cenário de pesadelo. O fato é que Wen Jiabao acrescentou que a primeira prioridade da China é defender os seus próprios interesses, ainda que com o outro olho na estabilidade financeira internacional, coisas que são "interrelacionadas". É um aceno no sentido de que a China pode parar de financiar os EUA? Se for, quem vai perder o sono somos todos.
domingo, 1 de março de 2009
Semana da Mulher
A trajetória específica da mulher desde o surgimento do homo sapiens é tão conturbada e controversa quanto a trajetória da humanidade como um todo e de suas partes em si, mas apresenta algumas peculiaridades que devem ser levadas em conta.
Foi na Revolução Agrícola, na transição do paleolítico para o neolítico, que o papel da mulher ganhou as configurações que, até bem pouco tempo atrás, se impunham de maneira indiscutível na organização da maioria das sociedades, da Groenlândia ao Ártico, tanto à leste quanto à oeste de Greenwich. Afinal, conservadores até a medula, os machos se mantiveram caçando, pescando e coletando, enquanto as mulheres, além de se dedicarem à manutenção da caverna (e, a partir da citada transição, da palafita) e à proteção dos filhotes, agora também plantavam, colhiam, pastoreavam e, nas horas vagas, de ócio criativo, desenvolveram a cerâmica, a religião e, segundo algumas fontes, principalmente baseadas no crescente fértil e nos árias, até o calendário. A relação entre o neolítico e as mulheres é óbvia. Uma das fases mais criativas da humanidade, a importância dos rios e da fertilidade do solo para essa etapa e para o consequente surgimento da civilização colocavam o mito da "deusa mãe" no centro da cultura, entre 20.000 a.C. e o século V d.C. (entre o neolítico e a queda da antiguidade).
Na medida em que a civilização surgiu, e o poder político se estruturou, a função da mulher foi se restringindo ao lar, principalmente entre os povos mais belicistas mas, ainda assim, a necessidade de filhotes saudáveis em sociedades como a espartana e a romana conferiam um certo "status" à mulher.
No início da Idade Média, com a ascensão do monoteísmo - cristão no ocidente e, no oriente, islâmico - ambos escorados na visão hebraica, ganha importância a compreensão da mulher como "influência pejorativa" ou "instrumento da tentação", nas palavras de importantes teólogos da época, como Santo Agostinho, em suas "Confissões", ou no próprio Alcorão maometano (vide o mito de Eva, a história de Dalila ou a interpretação da vida de mulheres históricas como Maria Madalena ou Cleópatra).
A partir de então, fogueiras, burcas, cintos de castidade e outros instrumentos de repressão se tornaram presentes no cotidiano de mulheres pelo mundo inteiro.
Já na Idade Moderna, a partir da ascensão dos valores burgueses, entre eles o individualismo e o materialismo, as mulheres foram se tornando mão-de-obra e, posteriormente, mercado consumidor cada vez mais útil.
Na colonização da América, mulheres brancas eram raras e, nesse "viés", também valorizadas, ainda que submetidas à um dos piores tipos de patriarcalismo de todos os tempos - o patriarcalismo rural desse "feudalismo tardio" que foi a formação da América Latina.
Enfim, na Idade Contemporânea, ao menos nos países "iluministas (*)", a campanha das "sufragetes" pelo voto feminino; a esmagadora mortandade de homens nos campos de batalha e as necessidades da indústria bélica entre os anos 10 e 40; o advento do consumo de massa; a invenção da pílula anticoncepcional; além da própria evolução cultural da humanidade, permitiram que as mulheres ocupassem todos os espaços da vida pública e privada, com possibilidade de escolhas individuais e participação nas decisões coletivas, ainda que enfrentando alguns desafios específicos muitas vezes diferentes dos desafios dos homens, entre eles o preconceito, as diferenças salariais, os diversos tipos de assédio e aquele que talvez seja o maior de todos: o de conciliar as suas "novas" funções com aquelas que sobrevivem desde o neolítico.
(*) A referência aos países iluministas tem dois motivos:
1 - Nas sociedades fundamentalistas, como os xiitas e os amish, a mulher é submetida à moral medieval.
2 - Entre as propostas socialistas do final do século XIX e do início do XX, circulava na Rússia a idéia da "esposa coletiva", que, partindo do pressuposto de que a mulher seria uma "propriedade", deveria ser então "socializada", executando, segundo um panfleto apócrifo russo do início do século XX: "suas funções e obrigações não em benefício de um único membro, mas da comuna como um todo".
Foi na Revolução Agrícola, na transição do paleolítico para o neolítico, que o papel da mulher ganhou as configurações que, até bem pouco tempo atrás, se impunham de maneira indiscutível na organização da maioria das sociedades, da Groenlândia ao Ártico, tanto à leste quanto à oeste de Greenwich. Afinal, conservadores até a medula, os machos se mantiveram caçando, pescando e coletando, enquanto as mulheres, além de se dedicarem à manutenção da caverna (e, a partir da citada transição, da palafita) e à proteção dos filhotes, agora também plantavam, colhiam, pastoreavam e, nas horas vagas, de ócio criativo, desenvolveram a cerâmica, a religião e, segundo algumas fontes, principalmente baseadas no crescente fértil e nos árias, até o calendário. A relação entre o neolítico e as mulheres é óbvia. Uma das fases mais criativas da humanidade, a importância dos rios e da fertilidade do solo para essa etapa e para o consequente surgimento da civilização colocavam o mito da "deusa mãe" no centro da cultura, entre 20.000 a.C. e o século V d.C. (entre o neolítico e a queda da antiguidade).
Na medida em que a civilização surgiu, e o poder político se estruturou, a função da mulher foi se restringindo ao lar, principalmente entre os povos mais belicistas mas, ainda assim, a necessidade de filhotes saudáveis em sociedades como a espartana e a romana conferiam um certo "status" à mulher.
No início da Idade Média, com a ascensão do monoteísmo - cristão no ocidente e, no oriente, islâmico - ambos escorados na visão hebraica, ganha importância a compreensão da mulher como "influência pejorativa" ou "instrumento da tentação", nas palavras de importantes teólogos da época, como Santo Agostinho, em suas "Confissões", ou no próprio Alcorão maometano (vide o mito de Eva, a história de Dalila ou a interpretação da vida de mulheres históricas como Maria Madalena ou Cleópatra).
A partir de então, fogueiras, burcas, cintos de castidade e outros instrumentos de repressão se tornaram presentes no cotidiano de mulheres pelo mundo inteiro.
Já na Idade Moderna, a partir da ascensão dos valores burgueses, entre eles o individualismo e o materialismo, as mulheres foram se tornando mão-de-obra e, posteriormente, mercado consumidor cada vez mais útil.
Na colonização da América, mulheres brancas eram raras e, nesse "viés", também valorizadas, ainda que submetidas à um dos piores tipos de patriarcalismo de todos os tempos - o patriarcalismo rural desse "feudalismo tardio" que foi a formação da América Latina.
Enfim, na Idade Contemporânea, ao menos nos países "iluministas (*)", a campanha das "sufragetes" pelo voto feminino; a esmagadora mortandade de homens nos campos de batalha e as necessidades da indústria bélica entre os anos 10 e 40; o advento do consumo de massa; a invenção da pílula anticoncepcional; além da própria evolução cultural da humanidade, permitiram que as mulheres ocupassem todos os espaços da vida pública e privada, com possibilidade de escolhas individuais e participação nas decisões coletivas, ainda que enfrentando alguns desafios específicos muitas vezes diferentes dos desafios dos homens, entre eles o preconceito, as diferenças salariais, os diversos tipos de assédio e aquele que talvez seja o maior de todos: o de conciliar as suas "novas" funções com aquelas que sobrevivem desde o neolítico.
(*) A referência aos países iluministas tem dois motivos:
1 - Nas sociedades fundamentalistas, como os xiitas e os amish, a mulher é submetida à moral medieval.
2 - Entre as propostas socialistas do final do século XIX e do início do XX, circulava na Rússia a idéia da "esposa coletiva", que, partindo do pressuposto de que a mulher seria uma "propriedade", deveria ser então "socializada", executando, segundo um panfleto apócrifo russo do início do século XX: "suas funções e obrigações não em benefício de um único membro, mas da comuna como um todo".
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